
Fernando Ribeiro/Emerson Rodrigues/Fernando Barbosa Foto: Bruno Gomes
As duas tentativas de negociação entre Governo e manifestantes ocorridas nas últimas 72 horas fracassaram. Depois da reunião realizada na última sexta-feira (30), na sede da Procuradoria Geral de Justiça (PGJ) não ter resultado em um acordo, uma nova proposta foi feita aos manifestantes pelo Estado, mas eles não aceitaram a oferta para por fim a paralisação das categorias. A procuradora-geral de Justiça, Socorro França, compareceu no fim da noite de sábado à 6ª Companhia do 5º BPM (Antônio Bezerra) acompanhada do promotor de Justiça Joatan de Castro Machado e de um coronel do Exército Brasileiro.
Conversa
“Cheguei e encontrei centenas de homens com rostos cobertos, mulheres e crianças. Conversei com eles e mostrei a proposta do Governo de que não seria instaurado nenhum procedimento disciplinar contra os praças (soldados, cabos e sargentos), além do início de uma rodada de negociações a partir de segunda-feira (2). Mas eles não aceitaram”, disse a procuradora.
Além da anistia, os militares exigem reajuste salarial de 80 por cento escalonado até 2015, redução da carga horária para 40 horas e pagamento de horas extras. Socorro França disse estar preocupada com a situação que “atinge a toda a sociedade cearense”. A procuradora-geral de Justiça “lamentou profundamente” a negativa dos manifestantes à proposta do Governo.
“Os representantes do movimento estão com os meus números de telefone, mas até agora (fim da tarde de domingo), nenhum novo contato foi feito”, afirmou. As negociações para por fim a paralisação de policiais militares e bombeiros militares tiveram início ainda na noite da última sexta-feira (30).
A procuradora-geral de Justiça Socorro França, reuniu representantes dos manifestantes, o comandante-geral da Polícia Militar, coronel PM Werisleik Matias e o procurador-geral do Estado, Fernando Oliveira, na sede da PGJ.
A audiência entrou pela madrugada e um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) chegou a ser elaborado, mas as partes não assinaram o documento. No sábado, o Governo elaborou uma nova proposta, que também foi rejeitada pelos policiais e bombeiros militares.
Controle
Na tarde de ontem, 80 homens da Companhia de Choque do 4º Batalhão de Polícia do Exército (PE) e do Pelotão de Comando e Controle de Distúrbios Civis (CDC), de Recife, desembarcaram na Base Aérea de Fortaleza, em um avião Hércules, da Força Aérea Brasileira (FAB).
Vindos de Recife, o grupo também atuou na Missão de Paz, no Haiti. Os militares darão suporte as ações das forças de segurança estadual que não aderiram ao movimento.
Durante toda a tarde, o comando da 10ª Região Militar esteve reunido com autoridades da Segurança Pública do Estado traçando as diretrizes da ´Operação Ceará´. Além do efetivo de Fortaleza e o que chegou ontem de Recife, de acordo com o tenente-coronel Charles Moura, chefe de comunicação social da Décima Região Militar, cerca de cinco mil homens já estão prontos para suplementar as atividades de segurança no Estado.
Entre eles, estão 100 militares do Batalhão do Exército de Teresina, no Piauí, e mais 40 do Batalhão de Crateús, no Sertão Central cearense. Alguns locais estratégicos para a Segurança Pública já estão sendo cercados e protegidos pelos militares do Exército e da Força Nacional.
A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) afirmou por meio de uma nota que está atuando em parceria com as tropas federais. Disse ainda que todas as medidas para o restabelecimento da normalidade dentro da Polícia Militar estão sendo tomadas.
Tropa
80 Militares que chegaram de Recife fazem parte da Companhia de Choque do 4º Batalhão de Polícia do Exército e do Pelotão de Comando e Controle de Distúrbios
Comandante da FNS tenta liberar viaturas paradas
No início da tarde do último sábado (31), o comandante da tropa da Força Nacional de Segurança (FNS), coronel Medeiros Filho, foi à 6ª Companhia do 5ºBPM (Antônio Bezerra), onde está sediado a base dos manifestantes negociar a liberação de 60 viaturas, para serem usadas no patrulhamento no aterro da Praia de Iracema e outras áreas da RMF.
O comando da paralisação, no entanto, disse que a liberação só aconteceria se o governador, através de um documento oficial, anistiasse os manifestantes. Medeiros Filho afirmou que isso não dependia dele e recebeu como resposta que nenhuma viatura sairia. O comandante da FNS garantiu que a tropa não partiria para o confronto com os militares estaduais e foi embora.
Tensão
A partir desse momento, o clima de medo de invasão tomou conta dos policiais e bombeiros militares. O comando do movimento chegou a pedir às esposas que ficassem do lado de dentro da companhia, na linha de frente. Seria uma forma de impedir que o local fosse invadido com o risco de machucar as mulheres e os filhos dos manifestantes.
Duas viaturas do 8ºBPM chegaram e tiveram os pneus secos. Um grupo chefiado por mulheres de militares foi ao quartel do Esquadrão de Polícia Montada (EpMont-Cavalaria), com objetivo de secar os pneus dos caminhões e evitar a ida dos PMs para fazer o policiamento do Aterro.
O perito Alderley Barbosa, da Perícia Forense (Pefoce) contou que durante a madrugada de sábado os manifestantes tentaram sacar os pneus do Rabecão e da viatura da Pefoce. Ele argumentou que a causa dos militares é justa, mas não tinha como deixar os corpos no meio da rua.
31 pessoas mortas no feriado do Ano-Novo
Entre as 19 horas do dia 30 de dezembro a manhã de ontem, no balanço parcial do feriado de Ano-Novo, 31 corpos deram entrada na Coordenadoria de Medicina Legal (Comel), que funciona provisoriamente no prédio do Serviço de Verificação de Óbitos, em Messejana.
Dessas mortes, 28 são consideradas violentas, uma de causa ignorada e duas suspeitas, que podem posteriormente passar para a relação das não-naturais. Os homicídios, 18 até ontem, lideram as estatísticas, sendo que 16 foram a bala, além de dois a facadas e um a paulada. A última pessoa assassinada em 2011, foi o estudante José Luciano de Sousa. Ele foi assassinado a bala no bairro Granja Lisboa.
O primeiro corpo a dar entrada na Comel em 2012 foi o do técnico em mecânica Júlio Costa de Souza, 59, vítima de atropelamento. O trânsito deixou sete mortos, entre colisões, atropelamentos e acidentes envolvendo motocicletas.
Aquiraz
Entre os homicídios, um dos mais violentos foi o que foi cometido em Aquiraz e teve como vítima o morador de Rua conhecido apenas por José Maria. Ele foi morto a pauladas e encontrado no dia 31 de dezembro, amarrado à estrutura de uma carroceria de caminhão.
Exército protege sede da Ciops
A sede da Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), situada entre a Avenida Barão de Studart e a Rua Silva Paulet, no Meireles, também foi cercada por homens do Exército Brasileiro durante a tarde de ontem. A medida tinha como objetivo evitar a aproximação dos policiais militares e bombeiros e manter a operacionalidade da Ciops enquanto persistir a paralisação dos militares estaduais.
Além disso, o local está situado ao lado da Sede do Governo Estadual, o Palácio da Abolição, que também pode ser alvo dos manifestantes. Cavaletes de ferro foram instalados no acesso pela Rua Silva Paulet e militares do Exército permaneceram no patrulhamento pela Avenida Barão de Studart, em frente a sede do Executivo. Somente pessoas com autorização prévia podem ingressar na área isolada pelos homens do Exército e da Força Nacional de Segurança.
Controle
Enquanto o controle de pontos estratégicos para o Governo segue sendo monitorado de perto pelas tropas federais, companhias do 5º e 6º Batalhões continuam sendo alvo dos policiais e bombeiros que aderiram a paralisação. Em Messejana, no Conjunto Ceará e na Parangaba, quase todos os PMs estão parados, seja por falta de viaturas ou por adesão ao movimento. Na noite de ontem, alguns militares do Grupo Raio também pararam.
Fonte: Diário do Nordeste