Leia a crítica do filme `Gonzaga- De Pai Para Filho´


(Foto: Divulgação)
Quando se pretende fazer cinebiografia não se deve querer que cobra engula elefante. Explico: o réptil é o filme, que tem limitações de tamanho por questões comerciais. O grande mamífero é o biografado, cuja história de vida, como qualquer históiria de uma vida, não pode ser sintetizada em duas horas. Billy Wilder disse certa vez que o cinema “era a arte de fazer escolhas”. A frase cai como luva quando se trata de contar a trajetória de alguém real nas telas.

A boa notícia para o espectador brasileiro é que o diretor Breno Silveira, que há sete anos acertou a mão com o longa 2 Filhos de Francisco, não tenta fazer cobra devorar elefante. Em Gonzaga – De Pai para Filho, desvia inteligentemente das cinebiografias convencionais e aposta num fragmento da vida de Luiz Gonzaga com forte carga dramática: a relação conturbada do Rei do Baião com o filho, o também artista Gonzaguinha.

Decisão mais que acertada e muito bem engendrada pelo roteiro de Patrícia Andrade, parceira de Silveira e dona de habilidade para construir histórias como o diretor gosta: carregada de emoção, mas sem apelos fáceis e artificialismos dramáticos. Produções cuja força emocional vem da eficiente construção de personagens e de um arco dramático bem desenvolvido. E isso Patrícia já provou que faz bem.

O fio condutor de Gonzaga são fitas com gravações originais de uma longa discussão entre pai e filho. Tensa conversa que Gonzagão e Gonzaguinha travaram nos anos 80, espécie de acerto de contas entre os dois. Esse drama pessoal se mistura à trajetória musical de Luiz Gonzaga e permite compreender também como aflorou a veia rebelde de Gonzaguinha, expressa em suas músicas.

A trama começa em 1981, mostrando um já famoso Gonzaguinha recebendo a visita da então esposa de Luiz Gonzaga, Helena, nos bastidores de um show. Hesitante, a mulher pede que ele visite o pai, argumentando que Gonzaga precisa de sua ajuda. Há anos os dois não se veem e Gonzaguinha recusa a princípio. Ato-contínuo, vemos a Brasília do cantor chegando à casa do pai em Exu. Ele muda de ideia e vai encontrar Gonzaga para ajudá-lo, mas também confrontá-lo. Do encontro, de onde se originaram as gravações, Gonzaga – de Pai para Filho faz incursões ao passado, revelando a trajetória de Luiz Gonzaga e como, ao longo dos anos dedicados à carreira, ele distanciou-se do filho até que, entre os dois, passasse a existir um abismo.

Apesar de usar os ressentimentos entre a dupla como ponto de partida, o longa não deixa de lado elementos básicos necessário a uma cinebiografia em busca do grande público. Temos a apresentação do personagem, a descoberta do talento, as dificuldade pelo caminho, o sucesso e a redenção final, tudo muito bem encadeado e linearmente desenvolvido para não causar quaisquer tipos de estranheza ao público médio.

Destacam-se no filme o músico Chambinho do Acordeon, que, mesmo sem experiência dramática, dá vida a um Luiz Gonzaga convincente entre os 27 e 50 anos, e Julio Andrade, o interprete de Gonzaguinha dos 35 aos 40 anos. O trabalho de caracterização de ambos é excelente, mas no caso de Andrade vale ressaltar o impressionante desempenho cênico do ator, que de fato incorporou seu personagem nos mínimos detalhes.

Gonzaga – De Pai para Filho peca um pouco por excessos eventuais no uso da música incidental para marcar a emoção em certas cenas. Quando isso acontece há redundância já que o momento, forte o suficiente emocionalmente, dispensava o recurso. Detalhe num filme redondo, que não arrisca, mas que atinge com êxito seu propósito: chegar ao grande público com a tocante história de um dos maiores artistas populares brasileiros.

Fonte: CineClick

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